Confesso: antes de mudar do Brasil, eu nunca tinha parado para pensar sobre a importância dos idiomas. O português era simplesmente “a língua que eu falava” – natural, invisível, como o ar que respiramos. Aprender outros idiomas parecia algo distante, reservado a pessoas super inteligentes, ou para quem trabalhava em empresas multinacionais, mídia, tradução, ou sonhava em ser diplomata, enfim, alguma profissão na qual este idioma fosse importante. Eu achava que a língua era um detalhe, e não uma riqueza.
No entanto, na dança das escolhas da vida, veio a oportunidade de sair do Brasil e lá fomos nós. No torvelinho caleidoscópico que é se adaptar a nova cultura, imersa em palavras, lugares, roupas e cenários tão diferentes dos que eu estava acostumada no Brasil, notei, feliz, que a raiz embaixo dos meus pés era verde e amarela, bem do tipo “a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai de dentro de nós”!
De repente, meu português deixou de ser invisível: ele virou algo precioso, uma identidade inteira que eu carregava comigo. Com tranquilidade, notei que isto não precisava mudar ou diminuir de importância e que eu podia me adaptar sem ignorar minha origem – e, acreditem, isto é tema de debate entre os “expats”, termo (erroneamente) usado para descrever quem mora fora de seu país de origem.
Sim, de debate: entre o grupo dos que se isolam, vivendo majoritariamente na comunidade brasileira e o dos que quase renegam terem, um dia, sido brasileiros, há aqueles que, assim como eu, tocaram a vida conciliando amigos e cultura brasileiros com amigos e cultura locais.
O desafio, no entanto, veio com a chegada dos meus filhos. Como falar com eles? Que língua usar? Ensinar apenas a nova língua do país de residência seria mais fácil — afinal, era a língua do entorno, da escola, dos amigos. Mas, ao mesmo tempo, deixar o português de lado parecia cortar uma parte essencial da nossa história. Não havia a menor possibilidade de que eles não conhecessem suas origens, não pudessem conversar com avós, tios e primos, ou que não tivessem acesso às músicas, estórias e tradições que fazem parte de nossa família.
Ampliando esta discussão sobre língua de herança para além das paredes de uma casa, lembramos um conceito interessante de Stuart Hall (sociólogo inglês) que afirma “ser a linguagem o principal meio pelo qual damos sentido ao mundo e construímos nossas identidades”. Com esse conceito, vemos que privar jovens de aprenderem e de usarem o idioma dos pais – no nosso caso, a língua portuguesa – seria tolher um pilar importante da formação de suas identidades, das conexões que têm com outras paisagens e outras gentes.
Reparem: ao conversar com um jovem brasileiro criado na Itália, por exemplo, e ouvir um sotaque específico, um “báh”, um “trem”, um “oxente”, ou os chiados cariocas, já notamos traços da estória daquela família, não é? Sim, a língua é o reflexo da cultura de um indivíduo, da família, de um povo, transforma-se com quem a fala e por isso carrega em si não só significados, mas também deixa um quê de memórias, pertencimentos e afetos.
Com base em argumentos assim e considerando os inúmeros benefícios cogniticos e didáticos do aprendizado de um segundo ou terceiro idioma, optamos por ter o português vivo no nosso dia a dia, tanto quanto a língua local, que não foi prejudicada em absolutamente nada. E, assim, dia após dia, construímos uma casa bilíngue. Não foi sempre fácil — exigiu paciência, criatividade e muita insistência — mas os benefícios logo começaram a aparecer.
Falar português, além do idioma do país onde moramos (inglês, no caso), abriu portas incríveis para os meus filhos. Eles não só desfrutam do prazer de dizer que falam línguas diferentes, mas também puderam se conectar com a família, amam a cultura brasileira e sentem orgulho de serem brasileiros, algo talvez esquecido nos jovens que vivem no Brasil. Ao final da escola, tiveram a chance de fazer o GCSE in Portuguese, um GCSE extra, do currículo escolar do sistema inglês de ensino, o que foi valorizado tanto quando buscavam uma vaga nas universidades quando no próprio curriculum vitae (CV), quando procuravam emprego. Um diferencial enorme!

Mais do que isso, ser bilíngue hoje é um ativo valioso no mercado de trabalho. Empresas buscam profissionais capazes de transitar entre culturas, lidar com diferentes públicos e comunicar-se em mais de uma língua. Saber português — uma língua falada em tantos países e uma das mais importantes do hemisfério sul — é, para eles, uma vantagem competitiva que poderá abrir portas ao longo de toda a vida.
Se, no início, eu não via valor em um idioma, hoje eu entendo: a língua é uma herança viva. Ao preservar o português dentro de casa, eu não apenas ensinei meus filhos a falar uma outra língua; eu lhes dei raízes, cultura, identidade e oportunidades.
Sem dúvida, de todas as heranças que eu poderia ter deixado, a língua foi a melhor.




